Somos alunos da Universidade Lusófona de Cabo Verde em São Vicente e criamos este blog por ocasião das Oficinas Sapo.Pretendemos levar a luz do dia os nossos problemas como estudantes, a nossa esperiência como Universitários, e muito mais....
28 de Fevereiro de 2010

Os Ata quizeram fazer uma entrvista à um musico de mindelense  para saber o seu ponto de vista sobre a música em são vicente

 

1.      Ata : Antes de mais os nossos leitores querem saber quem ês?

 

Neu: Chamo-me Emanuel Lopes, mas entre amigos e no meio artístico sou conhecido por Neu Lopes. Vivo aqui em São Vicente, trabalho na ASA há quinze anos e tenho tido um percurso artístico interessante, passando pela música de uma forma muito pessoal e pelo teatro em que já escrevi e ancenei quatro peças, tendo actuado em três delas. Tenho tentado recuperar o género musical em Cabo Verde (duas das minhas peças foram musicais). Estou a preparar um novo musical para 2011.

2.      Ata :Para ti, o que é a música?

Neu: Não é fácil definir de forma precisa e científica a música. Mas falando de uma forma científica e mais reduzida, pode-se dizer que música é a arte de combinar os sons simultânea e sucessivamente, com ordem, equilíbrio e proporção, dentro do tempo. Nisso teremos que falar de elementos importantes, entre as quais melodia (combinação dos sons sucessivos), harmonia (combinação de sons simultâneas) e ritmo (combinação dos valores tempo). Do ponto de vista emocional, não será errado dizer que a música é a arte de manifestar os diversos afectos de nossa alma mediante o som.

3.      Ata: O que tem a música no Mindelo?

 

Neu: A música no mindelo tem alma e tem história. Além do mais é uma música ímpar. Em São Vicente respira-se música. Além da sua vertente comunicativa, a música tem sido um dos percursores da nossa história, dos nossos hábitos e costumes, da nossa tradição, da nossa vivência social. A forma peculiar que os mindelenses têm de fazer, de viver e de vivenciar a música é muito por culpa da natureza cosmopolita dessa cidade. Mindelo, graças ao seu Porto Grande, foi uma cidade aberta para o mundo. As influências e fluências que temos recebido na nossa música vêm de vários cantos do mundo, passando por África, Antilhas (Mazurca, Zouk, etc.) da América Latina (Merengue, Cúmbia, Bachata, Bolero) e ainda de Portugal (sobretudo o Fado) e do Brasil (Samba, Choro, etc.). Até a forma de tocar tem muito a ver com essa vontade de abrirmo-nos a experiências novas que incluem o jazz e até outras influências nacionais como o Kolá e o Batuque. Referências dessa influência nos tempos que já lá vão são B. Léza (que introduziu um pouco da técnica brasileira, sobretudo do violão e do canto). A música de Cabo Verde começou a ser internacionalizada a partir do Mindelo, a bordo dos navios que atracavam no Porto Grande e que recebiam concertos em jeito de serenata, realizadas por mindelenses como o Tchuff que traduzia as letras do crioulo para o inglês.

Além do mais, a música do Mindelo tem tudo o que se espera – melodia, harmonia, poesia e muito ritmo. Mindelo é um a cidade de Morna e Coladeira, mas é também uma cidade do Carnaval e da Batucada. De realçar que Mindelo foi a primeira ilha de Cabo Verde com uma batucada própria, inspirada em ritmos como o Kolá, o Batuque e a Coladeira, descolando-se um pouco da Batucada brasileira. Tem ainda um manancial de grandes músicos, compositores, intérpretes e construtores de instrumentos. Os nomes são muitos e se começasse a mencioná-los, não sairíamos daqui hoje. Afinal, cada vez mais aparece músicos bons.

 

4.      Ata: Qual é a importância da música no Mindelo?

 

Neu: A música é o coração do Mindelo. Mindelo é uma cidade ritmada. Há momentos que é morna, há momentos que é Funaná. Seus habitantes vivem a música como se fossem a própria música. Se não houvesse música e teatro no Mindelo, São Vicente poderia cair no esquecimento desse país. Somos dez ilhas perdidas num canto do Atlântico que sempre foram desconhecidas até serem cantadas pelos quatro cantos do mundo pela voz de Cesária Évora, uma mindelense. Muitos são os músicos que são produzidos aqui no Mindelo, de Ti Goy a Boss AC, passando por vários nomes que enchem essa cidade de orgulho. As noites cabo-verdianas e músicos como Malaquias são importantes fontes de atracção turística. A música para nós do Mindelo é a paz cantada por Manuel d’Novas em “Êss País”. Mindelo foi e sempre será a cidade dos concertos, das serenatas, dos cantares de trabalho, do carnaval e do Festival da Baía das Gatas.

 

5.      Ata: Quem são as pessoas que contribuiram ou contribuem para o enriquecimento da música no Mindelo?

 

Neu: No Mindelo não é difícil fazer música. Toda a gente gosta e os ouvintes não faltam. Um artista faz música e sabe de antemão que vai ter sempre admiradores e pessoas que vão ouvi-la de forma apaixonada. Contudo posso mencionar nomes de músicos como Tchuf, Léla de Maninha, Ti Goy, Frank Cavaquim, Morgadim, Manuel d’Novas (embora natural de Santo Antão), Cesária Évora, Djô d’Eloy, Vlú, Vasco Martins, Dany Mariano, Bau, Hernani Almeida, Constantino Cardoso, Bana, Titina, Hermínia, enfim muitos mesmo.

Como já disse, nomes são muitos. Mas não são apenas os músicos. São produtores como Hernâni Almeida que, ao ajudar músicos mindelenses e praienses, evidencia mais a fama do mindelense, são pessoas como Ofélia que foi dona do tão conhecido Bar Calypso, Dominique Robelin que, nos bons dias do Café Musique deu a oportunidade de muitos músicos subirem ao palco, o Eden-Park, os grupos de carnaval, e todos aqueles que dão importância aos músicos e sua obra e neles acreditam.

Mas, a meu ver há três nomes que, por razões lógicas, mais se destacarão: Manuel d’Novas, Cesária Évora e Vasco Martins.

6.      Ata : Qual é o futuro da música no Mindelo?

 

Neu: O futuro a Deus pertence, mas posso afirmar que a música sobreviverá no Mindelo, para sempre. Teremos que contar sempre com mais músicos, cada vez mais jovens, com outras influências e desejosos de transmitir suas novas experiências. Acredito que haverá novas vozes que far-nos-ão lembrar que somos da terra da Cesária e de outras pessoas de vozes também especiais.

Creio que haverá ainda pessoas interassadas na nossa música como é o caso de Swagato. Vejo ainda pessoas a apoiarem a ideia apresentada pela Edil Mindelense para fazer de tudo para que a Morna seja património mundial. Haverá mais músicos, da Morna ao Rap e os compositires do carnaval (que aumentaram consideravelmente) proliferarão.

Mas não poderemos esquecer que é bom crescer em quantidade mas também em qualidade. Para isso é necessário haver mais workshops e apostar numa educação musical desde o ensino básico. E, para reforçar, o Ministério da Cultura terá que apostar em escolas de música para todas as idades e apoiar a SOCA (Sociedade Cabo-verdiana de Autores). A edilidade mindelense também terá que apostar mais forte neste sentido, numa cidade que sempre se quer como Capital da Cultura.

Acredito que tudo isso é possível e Mindelo vai ser uma cidade em que a música será nossa principal fonte de riqueza e o maior livro da história do nosso povo.

 

7.      Ata : Qual foi a tua inspiração para escreveres a musica de carnaval da Lusófona?

 

Neu: A inspiração vem dessa magnífica cidade e da rede de amizades que consegui construir na ULCV. Apanhei essa mania de aceitar fazer música por encomenda. Já o tinha feito com João Branco para a peça teatral “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá “ de Jorge Amado. A música foi composta por mim e contei com dois amigoa para a interpretação e arranjos – o Nuno Tavares e o Kisó Oliveira, um amigo de infância e grande músico mindelense. Foi um feito muito importante, uma vez que a música foi tocada em todas as rádios, chegando a ser proposta para o Top musical de uma das rádios mindelenses. Desta vez, foi o Dany Monteiro, músico e funcionário da Universidade Lusófona, onde estudo, a convencer-me. Gostei da ideia e teria que pôr mãos à obra consoante o tema que me propôs – a paz. Porém, decidi adicionar a educação e os bons costumes à paz, bebendo um pouco em expressões que hoje quase cairam em desuso como é o caso de “buldónhe” e “bô ca tem ciénça”. Também aproveitei para chamara atenção da inportância de São Vicente para o país.

Mas será também por ouvir tanta música de Carnaval? Talvez seja coincidência, pois fui criado numa casa em que a música era sempre o prato-do-dia. Meu pai fez muitas músicas de carnaval e ganhou por mais que uma vez o prémio da música de carnaval do Instituto Camões, prémio a que fui convidado a fazer parte do júri algumas vezes.

Fiz a música, foi divertido e não me importaria de repetir a dose.

 

publicado por ATA às 22:59
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